janeiro 29, 2013

Crítica: tocante, 'Amor' é uma delicada reflexão sobre envelhecimento

O amor sob o olhar de Michael Haneke


Virou manchete nos últimos dias a declaração de um ministro japonês, sobre a situação do governo em relação ao tratamento aos idosos e a pressão do Estado sobre o pagamento de suas despesas médicas. Segundo ele, o idosos deviam "se apressar e morrer". Depois de desculpas públicas devido a polêmica levantada, ele disse que falava de si mesmo, e que não suportaria prolongar a vida, quando sua vontade é morrer. Em Amor (Amour, 2012), novo filme de Michael Haneke (Violência Gratuita, A Fita Branca), um casal apaixonado de idosos sente a morte se aproximar. Contudo o filme explora também, além da aproximação natural desse evento, a ideia presente na declaração do ministro: o apressamento do fim.

Começar a falar sobre o filme utilizando essa declaração, é importante para contextualizar o que se é envelhecer nos dias de hoje. Se antes era sinônimo de sabedoria, educação e que requer respeito para lidar com a pessoa idosa, hoje é um problema. Em tempos de crise e o aumento da população idosa, chegar à terceira idade significou virar um fardo para as pessoas ao redor, seja o governo, família ou o companheiro. Em Amor, tudo é mostrado de forma singela, inicia mostrando o cotidiano de uma casa na terceira idade, cercado de cultura, bom gosto e amor. E não se trata de um casal com uma situação complicada. É de classe média, esclarecidos e de bom convívio, ambos ligados à música, gostam de ler e colecionam pinturas.

O diretor que tem o costume em mostrar o lado mais apocalíptico do ser humano - vide a forma cruel, da qual, crianças eram sujeitadas em A Fita Branca - traz a realidade de forma crua, porém capricha na delicadeza e sensibilidade sem desmerecer o encanto do amor entre o casal. O cotidiano dos dois é quebrado quando aparentemente a porta da casa deles aparece arrombada, simbolismo lógico denotando que algo vai lhes roubar a tranquilidade. Logo a esposa Anne (Emmanuelle Riva, excepcional), começa a ter lapsos momentâneos, que preocupam seu cônjuge Georges (Jean-Louis Trintignant). Sem se preocupar em mostrar as idas e vindas ao hospital, o resto da trama se passa dentro do apartamento dos dois e o agravamento de saúde de Anne causada por um entupimento na carótida.

E nesse apartamento, o que era belo e bonito, vai ficando melancólico e vazio. O ambiente que antes era uma casa aconchegante, vai ficando silenciosa, sufocante. Haneke consegue com muitos simbolismos mostrar o sentimento do casal. A casa cheia de história, assim como o casal, vai ficando empoeirada - e o diretor tira um minutinho pra mostrar uma faxina no carpete -, vai sendo tomada por pombos como se nada tivesse mais ali - e lá se vai mais minutos tristes do homem tentando expulsar aquele incômodo ou capturar o pássaro. Essa forma de contar o sentimento, utilizando a casa como uma metáfora poética e sentimental, fazem de Amor uma obra complexa, lírica e tocante.

Tirando isso, ainda resta criar conflitos mais claros como o da filha do casal que não suporta a situação, mas também não tem o que fazer, ou o jovem aluno de Anne que agora bem sucedido vê com tristeza o casal, que apenas está vivo, vivendo, como se a velhice fosse aterrorizante ao seu olhar. Afinal, como aquela mulher tão culta e talentosa pode estar naquela situação? Lembra muito a crítica severa de As Invasões Bárbaras (2003) de Denys Arcand, da qual, os jovens estão mais preocupados com tecnologias e a inflação do que está acontecendo ao seu lado com seu parente (a filha do casal em Amor chega a ter essa conversa com ela, sobre a crise imobiliária). Envelhecer é tratado como um problema na sociedade nos dias de hoje, e essa mesma sociedade intensifica isso seja na pressão da mídia ou no mercado de trabalho. É uma doença que deve ser isolada, e sorte daqueles que tem alguém para tomar conta de si com respeito (Haneke ainda faz uma crítica sobre assistentes sociais). Mas nem mesmo eles se vêem mais como merecedor de apoio e sim preferem morrer, vide os comentários do tal ministro.

A reação no final do filme, na minha percepção, não poderia ser mais natural com o que fora mostrado anteriormente. Não se vê traços religiosos no casal, dado seu nível e instrução que geralmente não acredita em Deus. Apenas uma necessidade de liberdade, como o diretor mesmo explora mostrando nos quadros pendurados e focando em janelas e no simbolismo do próprio pombo. Além disso, amor para Haneke é muito mais o companheirismo e o favor de fazer aquela brutal ação, mesmo que questionável aos olhos alheios. Livrar da dor, mas sem desrespeitar (e ele faz até um pequeno e singelo velório). Não dá para julgar se a ação foi correta ou não, isso não importa. Ali são dois seres humanos que viveram uma vida bela, e, para ele, valia mais uma morte apressada que um sofrimento sem fim de seu amor - deixando qualquer traço de culpa, já que ele também dá a entender que partiu (assombrado pela solidão que lhe dá pesadelos). Quem vai fazer juízo de valores sem antes não se colocar no lugar?

Reflexivo, triste e denota muito bem a crueldade que é fixada na mente da sociedade nos dias de hoje. Os olhares preconceituosos sob idosos quando se sentam em lugares marcados em ônibus e quando possuem uma fila especial em estabelecimentos. Hipocrisia seria criar um final feliz numa situação tão complexa, mesmo que Haneke tentou fazer algo mais leve em seus minutos finais, mostrando uma lembrança clara do que é mais importante: o companheirismo. O apressamento aqui, felizmente não é tão motivado pelo sistema capitalista, e sim pelo amor. Traços otimistas para uma obra tão pessimista e que, por isso, lhe fazem ser primorosa.

Trailer:



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