fevereiro 05, 2013

Crítica: Loucura e normalidade se misturam em 'O Lado bom da Vida'

A terapia da vida... mas com um final piegas


Muito tem em comum O Lado bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012) e O Vencedor (The Fighter, 2010), ambos de David O. Russell, premiados e com atuações marcantes. Não tratam de temas extraordinários, são de origem independente, valorizam o roteiro bem construído e com diálogos bem intercalados, equilibrando a simplicidade da história com um jeito diferenciado de contá-la. Isso faz de temas pesados, como o vício em drogas tratado no filme do boxeador e, agora, nesse com seus protagonistas disfuncionais, ter ares de comédia. E apesar dos dois mostrarem drama familiares, não chegam a carregar o tom da história negativamente.


Em O Lado bom da Vida, Russell parte para o romance que ficou descompensado em seu longa anterior. Primeiro conhecemos Pat (Bradley Cooper, muito bem no papel) um jovem professor de história que fica um bom tempo internado num hospital psiquiátrico após um violento colapso nervoso. Perdeu o emprego, o casamento e a credibilidade. Depois de um tempo, volta para a casa dos pais, com vontade de retornar a "normalidade". Pronto para tentar reconquistar a esposa e a confiança dos pais, vai aos poucos tentando se manter na linha. Porém, ele foi diagnosticado com transtorno bipolar, o que o faz ter de variações de humor quando se vê sob pressão ou estresse.

Com uma restrição policial que não permite que ele se aproxime da esposa, Pat acaba conhecendo Tiffany (Jennifer Lawrence, roubando a cena). Ela é jovem que também passou por um colapso e vive uma crise como a dele, e agora é uma forma dele se aproximar da esposa - ambas possuem um contato em comum. E é aí que se vai ficando mais claro onde o roteiro quer chegar. O poder de Tiffany sob ele fica evidente logo na primeira cena entre dois, quando ele perde a fala ao reparar nela. A partir daí, Pat começa uma jornada não tão disfuncional em relação as pessoas "normais". Ele precisa superar um casamento fracassado e ceder as investidas de Tiffany que está afim da companhia dele. A única diferença é os dois tem problemas e são um pouco mais alterados que os demais. E o diretor sabe mostrar isso muito bem.

Ao apresentar os distúrbios de Pat, Russell não economiza nos escândalos até que Pat aceite a tomar medicamentos. E assim encerra o primeiro ato com ele consertando uma janela que quebrou. Em seguida, insere a personagem de Lawrence como um choque no cotidiano do moço. Ela literalmente dá um susto nele, lhe dá um tapa, o assusta durante uma corrida, passa à "persegui-lo" (correndo atrás, no sentido literal mesmo) e aos poucos, lhe dá algumas lições de moral. A verdade é que Pat é um acomodado, se escondeu atrás de uma doença e a aceitação dos pais. É incrível como as cenas dele correndo funcionam como uma metáfora visual quando ao redor está o american way life, parado, silencioso. Então Tiffany agita sua vida. É como se apenas os dois fossem o movimento no contexto da realidade. Os "anormais".

Tiffany representa aqui, a verdadeira "louca" da história. É ela quem vai mexer nas engrenagens da vida e de fazer não só Pat, mas como toda sua família se movimentar, seguir em frente sem medo. Utilizando a dança como método (ferramenta não muito sútil no roteiro, mas que funciona no final), ele acaba focando no que aprendeu nos tempos internado: gastar suas forças negativas no lado bom da vida. Por mais que tente fugir da realidade, é Tiffany que está afim de trocar ajuda e assim vencerem os problemas juntos e vai manipulá-lo para isso. E no final, caindo em um caminho piegas demais, mesmo buscando fazer referências de clássicos românticos, a corrida sela o que se foi visto durante o longa, Pat desta vez é que está atrás da garota.

O Lado bom da Vida funciona como uma boa história reflexiva, falando sobre a vida e como ela mesmo tem as ferramentas para ajustar qualquer engrenagem fora do lugar. Mas não que tudo precise ser perfeito - basta reparar como a dança imperfeita deles, lhes entregou a felicidade - o mais importante é se esforçar e focar nas pessoas que querem ajudar ou que procuram ajuda. É uma aposta não tão certeira como é mostrada no filme, mas funciona quando se tem vontade de vencer alguma barreira. O problema da sociedade, não são esses que correm pela cidade à procura de movimento, e sim os parados vivendo sua loucura silenciosa que lhes é permitida: seja no violento fanatismo esportivo ou na perfeita e sufocante vida subúrbio, da qual, casas tem um ipod em cada comodo da casa e os casamentos são de aparências.

Trailer:



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