fevereiro 07, 2013

Crítica: 'Os Miseráveis' é uma revolução musical espetacular

Adaptação ressalta o ditado "comeu o pão que diabo amassou"... só que cantando


Dizer que uma adaptação cinematográfica do musical Os Miseráveis, oriundo do clássico da literatura escrita por Victor Hugo e lançada em 1862, não era uma das obras mais aguardadas nos últimos anos, é balela. Em Hollywood, a história nunca se sobressaiu como deveria, sem ser sucesso de crítica e público ao mesmo tempo. A primeira que teve alguma comoção e chegou ser indicada ao Oscar foi a de 1935, dirigida por Richard Boleslawski e outra em 1952 de Lewis Milestone também chegou a ter alguma notoriedade aproveitando a evolução dos aspectos técnicos. Em 1998, uma superprodução de Bille August, tentou resgatar a alma da obra. Porém apesar das boas críticas, o filme afundou nas bilheterias. Todas elas contam com pouca diferença o que se é lido nos livros, parecendo sempre engessadas. Nos palcos a história foi outra.

O aclamado musical que está em cartaz desde os anos 80, e já ganhou versões em diversos países, se sobressai pela união lírica da história de superação com a crítica social. A encenação é embalada por canções que viraram clássicas graças ao sucesso - é impossível não citar o fenômeno Susan Boyle, cantando I Dream a Dreamed e trazendo de vez o musical para a era digital (que pode ter dado o impulso final para a adaptação vinda dos palcos). Eis que a cereja do bolo foi o diretor Tom Hooper, que acabara de ter vencido o Oscar pelo O Discurso do Rei, foi chamado para realizar a adaptação - mais um sinal da importância do investimento. Além disso, o contexto ajudou em muito o sucesso que de Os Miseráveis (Les Misérables, 2012), em forma de musical, nos cinemas. Em tempos de Occupy Wall Street, e revoltas civis em vários cantos do mundo, a Revolução Francesa tem muito à inspirar. E nada melhor do que unir algo testado e aprovado com a realidade que vive o mundo. Resultado, sucesso de bilheteria e 8 indicações ao Oscar 2013.

Mesmo que em baixa, é perceptível que Hollywood busca uma nova era do ouro de musicais para o cinema. No próprio Oscar deste ano será feita uma homenagem aos sucesso da última década como Chicago e Dreamgirls (estranhamente tiraram o magnífico Moulin Rouge da lista). Mas essa adaptação de Os Miseráveis tem seus próprios méritos de ter chegado tão longe, e não apenas o auxílio da peça e suas músicas memoráveis e a boa vontade da indústria. O alto investimento foi recompensado de forma arrasadora. A sintonia entre o texto, e atuações de um grande time de atores como Hugh Jackman, Anne Hathaway e Russell Crowe, até o time infantil que é afinado, junto com a parte técnica: edição, trilha sonora, fotografia, efeitos especiais, maquiagem, figurino, fazem da obra interessante, divertida e tocante. A última vez que um musical no sentido mais clássico estreou feito com tanta maestria, foi Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007) do mestre Tim Burton - talvez seu último filme realmente bom. Mas esse tinha elementos góticos, marca registrada do diretor, e não é tão comercial como espera Hollywood.

Como nos clássicos do cinema, é perceptível a mudança de atos no musical. Começa com melodrama trágico, vivido pelo protagonista Jean Valjean (Jackman) e Fantine (Hathaway). Os atores escolhidos são ótimos cantores (o diretor os fez realmente cantarem durante as filmagens de cenas mais pessoais, e não apenas dublarem como é o normal). E chega até o início da transformação do herói da história em busca de redenção, que passa por momento cômico apresentando o cortiço, da qual, vivem os malandros que cuidam de Cosette, vividos pelos já conhecidos em Sweeney Todd por papéis semelhantes, Helena Bohan Carter e Sacha Baron Cohen. Existe também uma necessidade de inserir uma consciência no complicado investigador Javert (Crowe) - o personagem que mais sofre mudanças entre as adaptações. Nada como cantar um pouco e desabafar - uma ótima sacada ele está sempre à beira do abismo (paraíso e inferno), e prefere pular para a lei, que não lhe oferece vida, afinal ele é fiel ao que acredita.

Mas nem tudo são flores. Apesar de momentos marcantes de extrema habilidade artística e técnica - as cenas de revolução com bandeiras batendo cotra o vento, no maior estilo do pintor Eugène Delacroix, são emocionantes de se ver - o longa tem  um roteiro por vezes preguiçoso. São personagens que se encontram em momentos mais oportunos. Seja Valjean encontrando Cosette numa floresta, depois dando de cara com alguém que o tenha ajudado e agora este lhe deve uma ajuda para se esconder, ou cruzando com pessoas até mesmo dentro do esgoto. As coincidências são tantas que banalizam o acaso e enfraquecem a narrativa. Entretanto, Os Miseráveis tem ao seu favor todas as qualidades que esses deslizes não atrapalham o resultado final.

Um filme memorável, contando uma história que apesar de tão revista, é emocionante e sempre será ícone para momentos de superação em tempos sombrios. A injustiça social, um problema constante em grandes países, e pior ainda nos mais pobres, sempre contribuíra para o sucesso e o apresso dessa obra. E não importa o seu estilo - mesmo que no musical seja mais atraente e com um final ainda mais emocionante. A catarse da história será sempre a redenção daquele que literalmente comeu o pão que o diabo amassou, mas isso mudou sua vida, depois de conhecer a bondade e o altruísmo. E termina feliz, mesmo sendo em suma trágica. Não importa o tempo, Os Miseráveis sempre será inspirador, só manter sua alma, como nesse glorioso filme musical.

Trailer:



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